Wednesday, April 30, 2008

crónica sombria

Amigos que o foram (ou não)

Sabemos como a vida é capaz de nos dividir caminhos e fazer mergulhar em forçada solidão. Como se encarrega de nos enredar em turbilhões sombrios de deveres e haveres. Como as amizades se perdem na distância que não se pode percorrer ou no tempo que não pode volver. Aceitamos tudo isto como natural e imprescindível ao nosso avanço pela vida dentro.
Conhecemos a ordem implacável do mundo que nos obriga a velocidades maiores que o nosso passo e no entanto…
Se de repente nos surge um desses fantasmas do passado que não esquecemos, alguém que nos acompanhou e que perdemos sem razão aparente, queremos recuperar o tempo perdido, pô-lo de novo a fazer parte do roteiro dos nossos dias.
Dói quando tentamos e percebemos que no outro existimos já e só apenas em catálogo, numa prateleirinha bem colocada do armário, à qual ninguém limpa o pó e pela qual se passa sem olhar.
Dói, apesar de “natural”, dói, apesar de ser exactamente isso o que esperamos desse fantasma que tínhamos feito tudo para esquecer e afinal ainda nos acena, enganador. Dói corrosivamente, sem explicação racional, até que o esquecimento repõe a tranquilidade desejada. Fica-se mais pobre, sem remédio.

Wednesday, January 30, 2008

Programa de investigação

Sei que olho para ti como se já tivesses morrido. Não podes já convencer-me de nada, existes numa esfera onde não navego. Nem dor nem raiva, sinto conforto e falo de ti no passado.
E no entanto
Indico-te mil caminhos,
Deixo-te pedrinhas brancas a marcar o caminho de mim

Não trilhas nenhum, vagueias em volta de alguma pedra negra que lá não pus; depois recuas, o medo a atrapalhar-te as escolhas que nunca soubeste fazer, sempre à espera que o vento te empurre numa ou noutra direcção, alheia à tua vontade e responsabilidade. Mais fácil é acusar o vento. Andar ao sabor dele, por comodismo ou simples tentação.

A propósito, nem sei o que te tenta agora. A morte levou-te, lembras-te? e aos mortos falta toda a espécie de curiosidade – nem te importarão viagens, nem tesouros, nem aventuras de cama e mesa.
Ao contrário da minha gata preta, para a qual um simples caixote de papelão é um programa de investigação inteiro!!!

Sunday, January 13, 2008

ressaca

eu sabia ou pelo menos suspeitava, que quando acabasse "o trabalho" se passaria qualquer coisa sem explicação e mesmo muito, muito estranha - não que tenha já entregue o trabalho, mas só lhe farei mais uns retoques, a cosmética, por assim dizer.
nunca tomei drogas, álcool só muito de vez em quando, mas suspeito que o quadro que me corresponde se chama ressaca, por isso desculpem qualquer coisinha...

Wednesday, November 28, 2007

gata preta

Tenho ao colo uma gata enroscada num cascol porque não a quero arrefecer com as minhas mãos sempre frias... isto será normal ?
Enquanto espero que acorde vou postando...

Thursday, November 22, 2007

Estação Loran (NATO) Santa Maria Açores


Não deve haver regressos fáceis à infância…
Se fomos infelizes, não nos apetece reviver o passado, mas somente fugir dele a sete pés!
Se fomos felizes, como é o meu caso, vem-nos a nostalgia de quem já não temos connosco e acompanhou esses anos. Depois há a nostalgia dos lugares, das paisagens e das casas, as medidas daquele hall que percorremos todos os dias, daquele armário em que nos escondíamos, do corredor em que fazíamos patinagem artística. Essas medidas acompanham-nos para sempre: formatam dentro de nós uma dimensão de aconchego que fica parte intrínseca de nós.

Se juntarmos a tudo isto as regras da sensatez, que o Rui Veloso imortalizou na cantiga com o mesmo nome, melhor perceberão os Marienses que me lerem o choque que foi ver a Loran, já em 1994 naquele destroço em que se encontra. Cometi a patetice de lá voltar (já sem máquina fotográfica) em 2000, após a morte de meu pai, e já não consegui circular na estrada alcatroada que circundava o complexo, tal era o matagal. Desta última vez nem sei se cheguei a entrar na casa que era a minha!

Sim, eu vivi lá dos seis aos dez anos, frequentei a escola feminina de Santa Bárbara e fiz exame de 4ª classe na escola de Vila do Porto, aquela, logo à entrada, quando se vem do aeroporto (tenho até um diploma assinado pelo sr. Prof. Geraldo Soares Coutinho Cabral). Quatro anos passados entre afazeres escolares, leituras (tínhamos a visita regular da biblioteca itinerante da Gulbenkian e os livros, imaginem quais, do Noddy!, sim, sim o mesmo que agora é figura televisiva) e sobretudo muita brincadeira ao ar livre, em total liberdade (ainda não se tinha inventado o rapto de crianças, pelo menos por aquelas paragens) e com mar por todos os lados, a avistar o jacto de água levantado pelas baleias de vez em quando. O que pode mais desejar uma criança? Um pai e mãe estupendos. Pois também tive, sendo que mãe ainda tenho!

Este post, acreditem, não veio sem dificuldade, foi um pedido do dono de um blog sobre Santa Maria, a que acedi com enorme gosto, mas alguma mágoa, por verificar a quantidade de asneiras que aparecem na Internet sobre a Loran (por exemplo que foi o estado francês que a construiu!!!!), por ficar a saber que nada foi feito num espaço tão nobre. Mesmo que as casas não sejam aproveitáveis, pelo menos o terreno, não? Tive ocasião de dizer a um dos senhores presidentes de Câmara de Vila do Porto que preferia ver as casas arrasadas a vê-las em tal estado. É a verdade, não me repugna que seja dado outro uso a uma casa que me pertenceu ou que habitei. Significa isso que ela vive, que seguiu em frente a sua vida… mas aquilo! Aquilo é morte por negligência e abandono. É demais, é demasiado triste, ver o mato soberano tomar conta do passado sem que nada nem ninguém lhe faça frente. Só me vem à memória uma fala de Denis, em África minha: it will grow wild… e de que maneira, aquilo é uma verdadeira lição da natureza, é a sua vitória sobre o nosso desleixo – não me excluo.

Mas não fiquem os Marienses desgostosos e sobretudo não pensem que só aí é que acontecem coisas destas. Os que já vieram aos Jerónimos podem ver, mesmo à frente do CCB, a ruína que ali ficou da exposição do Mundo português, do tempo do Salazar (sem vénia e sem dr, para que não haja dúvidas sobre mim), vejam em que ano foi que não sei precisar. E lá está e nada acontece. E podem crer que a verba para construir o tal de CCB foi bem choruda, à data. Lembro-me que no orçamento do Min da Cultura desse ano esse era o número mais comprido!

Mais alguma coisa que queiram saber, perguntem. Talvez eu precise mesmo de responder….

Wednesday, November 07, 2007

kika

Arranjei uma gata preta na rua. Não sei o que me deu. Achei que o bicho chamava por mim, ou talvez me tenha apetecido outro bebé, mas dos que não usam fralda e são asseados por natureza. 330g de uma coisa peluda que se confunde com o meu teclado preto novo e da qual já não me apetece separar. Eu que odiava aquele provérbio estúpido que diz que quem não é para os animais também não é para as pessoas, toda enlevada com as parvoíces da parva da gata.
Eu que nunca pensei ter um bicho de 4 patas em casa.
Perfeita, se não tivesse unhas nem dentes.

Tuesday, October 23, 2007

sem título


Porra, só para desalojar o post das cenouras...